Chove dentro do carro

Photo by Vladislav Klapin on Unsplash

Eu espero que um dia ela me mande alguma mensagem, da mesma forma que eu sempre mandava para ela perguntando se estava disponível ou se poderíamos nos ver naqueles dias. Eramos um ritual de semana, um encontro em que fazíamos um balanço de nossas vidas, um abraço trocado, uma cerveja paga e uma compaixão declarada.

Até ela me expulsar de sua vida, no momento em que uma brincadeira magoou dois corações. Saí de lá descalço, com a bagagem nas costas que ela encarava. Não a encarei ao sair, preferi o chão que sujava meus pés. Entrei no carro, enquanto ela fechava o portão. Parti, ela trancou a porta, eu esqueci o endereço e deixei as lágrimas correrem.

Após cinco quadras, parei no acostamento e deixei o rosto se inundar em desespero. Eu não queria ter vivido aquela cena, não queria separar algo tão bonito. O rádio desligado me impediu de pensar em qualquer outra coisa, ou qualquer outro destino, naquela madrugada. Poderia ir para a casa da minha mãe, para a casa do meu primo, para a casa de outros amigos, porém nenhum destes destinos eram confortantes, e em todos teria que explicar a fissura aberta esta noite.

Penso que talvez esteja exagerando, equivocado. Penso no ridículo em me ver entrando na padaria 24 horas para pegar uma cerveja, com o rosto molhado. Os julgadores me olham, tentam adivinhar meu passado ou minha agonia. Está sendo idiota tentando apagar isso com o álcool, pondero. O preço da bebida me assusta, pago pela conveniência, não mais pelo produto. Foda-se, eu quero tomar isso, retorno.

Agora ligo o som do carro, mas troco o disco. Deixo a clássica musica pop de lado para dar lugar ao country americano, calmo, emotivo, que me abraça em cada nota grave, sombria e triste. A cerveja esquenta entre minhas pernas, mas também sacia minha sede de sentimentalismo, enquanto entra pela boca e escorre pelos olhos.

Novamente, penso em voltar para casa, mas não encontro lugar algum. Deixo o combustível queimar dentre os quilômetros percorridos pela cidade, entre as músicas repetidas no som e as palavras que ecoam na minha mente. Paro agora em frente à casa da minha avó. É tarde, porém as luzes continuam acesas, ela deve ter dormindo no sofá, penso.

— Nossa, o que aconteceu? — Ela não é boba, já usei o ombro dela em outras ocasiões.

— Talvez o fim — Confessei.

— Ah, o fim está tão distante para você — confortou — , mas que bom que apareceu, é o único que ainda vem aqui…

— Às vezes me falta tempo.

— Eu sei, mas sempre que der, venha fazer companhia para a avó.

Eu sabia mais dos nossos diálogos que os poemas que escrevia. Enfim, entrei em uma casa. Usei a mesma toalha amarela para tomar banho e enxugar minha insanidade, deixei a água levar a noite, deixei o copo de leite dela se sobrepor às minhas lágrimas e aquela maternidade reconstruir minha integridade.

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