Amarras temporais

(Imagem: Unsplash)

– Tem ideia de que faz três meses desde a última vez que você veio aqui? — Diz ela.

– Uau! É mesmo, eu não tinha percebido. Não parece que todo esse tempo já passou. A gente sempre mantém contato por mensagens e parece que estamos sempre nos vendo. — Rebate ele.

– É, passou e o tempo vai continuar correndo deste jeito. — Ela pausou por um minuto, ele permaneceu em silêncio. — Por isso que temos que aproveitar todas as chances da vida, todas as oportunidades que batem em nossa porta e todas aquelas que correm de nós. — Retomou.

Ele continuou ponderando sobre isso, o quão rapidamente e inconscientemente tudo acontecia. Em como eles seguiam a rotina da vida, do mundo, obcecados pelo fim de semana, pela folga do feriado e pelas datas comemorativas; deixavam o dia ordinário correr sem valor, sem sentimento, sem humanidade.

Eles desviavam de desafios, de aventuras; blindavam-se para a compaixão, a emoção de novas experiências; cegavam-se de pessoas comuns, potenciais amizades, novas histórias, novos conhecimentos e descobertas.

E com a ânsia em rever um velho conhecido, um amigo, um amor guardado, um familiar perdido; em resolver as mágoas, os problemas; em afogar-se no alívio de ver-se livre das amarras do dia a dia; em desejar a mudança imediata, a notícia quente, a novidade; eles circulam no mesmo sentido que o relógio, apressando o calendário com a certeza de que o que vem à frente é melhor, com a convicção de que é certo deixar a história sem clímax, de que é certo não cuidar do dia, deixando os maus momentos poluírem a memória e construírem um ano detestável.

– Estamos vivendo a vida do melhor modo? — Perguntou ele a ela.

– Não estamos no ápice da vida, mas estamos chegando…

– Viu! — Interrompeu ele. — É isso que eu quero dizer. Não é dessa forma que devemos pensar. Estamos em constante espera pela melhora e esquecemos que o agora é o melhor do passado e o passado foi o melhor de ainda antes. Quando você imagina ser este ápice?

– Não sei, talvez quando cada um estiver estável, com uma casa, uma família, um emprego saudável… — Respondeu, pensativa e em dúvida.

– E garante que é só isso? Se você conquistar este momento na próxima semana, garante que vai aproveitar a vida como se não faltasse mais nada? Não vai mais desejar melhoras, aperfeiçoamentos, não vai mais querer saltar no tempo ou imaginar uma vida ainda melhor?

– Não sei.

– Então! Esse é meu ponto. Nossa cultura é futurista. Esquecem-se de que o presente é mais importante. Esquecem-se de que a certeza é aqui, onde estamos, não onde possivelmente estaremos. A vida é exata, não baseia-se em subjetivismo. Consegue acompanhar meu raciocínio?

– Acredito que sim. Quer dizer que vivemos da melhor maneira?

– Dentro de nossas capacidades, sim. Estamos aqui, juntos, e isso já é ótimo. É o que podemos fazer. O que importa é o que fazemos para termos um dia melhor, para guardar boas memórias, escrever grandes histórias, entende? Eu e você desejamos desde a segunda-feira que o fim de semana chegasse. Acho que ao fim do dia, em vez de dizermos “mais um dia passou”, devamos dizer “que pena que já acabou”.

– Que pena que este dia está acabando. — Lamentou ela.

– É uma pena sim, mas amanhã teremos grandes experiências. Claro que vários fatores comprometem nosso humor e saúde mental durante o dia, porém cabe a nós escolher o que mais nos afeta positivamente.

Ela abrira um sorriso, despercebido e tímido, enquanto seus olhos encaravam o chão.

– Livre-se das amarras do futuro. Prenda-se ao presente, mulher!

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.